Em meio ao horror, sírios em Damasco questionam autoria de massacre

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Moradores da capital relatam momentos de pânico que se seguiram ao ataque. Embora quase não reste dúvida sobre gás tóxico, muitos questionam se foguetes foram lançados por rebeldes ou pelo governo.

Ataques - Síria

Na manhã de quarta-feira, o comerciante Mohamed Z. observou pela janela de sua casa, no bairro de Bab as Salaam, os disparos de foguetes contra áreas mais ao leste de Damasco, controladas pelos rebeldes. Para ele, era mais um dia de bombardeios das tropas do governo contra posições do Exército Sírio Livre (ESL). Mas as imagens que correram o mundo revelaram um massacre de civis na capital síria. Ativistas sírios e membros da oposição alegam que forças governamentais realizaram um ataque de “gás venenoso” contra pelo menos três bairros – Irbin, Ein Tarma e Zamalka –, deixando centenas de mortos. As autoridades sírias negaram veementemente qualquer envolvimento.

“Estava na cozinha da minha casa, quando escutamos um estrondo. Pela janela pude ver inúmeros foguetes atingindo a região de Zamalka e Irbin”, disse Mohamed. Ele contou que as pessoas já estão acostumadas ao som de bombardeios, mas a notícia de um ataque químico deixou os moradores “revoltados e ao mesmo tempo com medo”. “Nosso bairro não é tão longe de Irbin e Zamalka. Ficamos receosos de que pudessem acontecer mais bombardeios e em maior escala”.

Zeina H., estudante de arquitetura, contou ter visto foguetes atingindo a região da cidade conhecida por ser um reduto rebelde. “Não sei dizer se (os foguetes) vieram das áreas controladas pelo governo. É comum eles bombardearem quase que diariamente os rebeldes”.

Pânico – O músico Haissam F. disse que seu irmão Hassan mora na região de Ein Tarma e que as pessoas ficaram apreensivas em Damasco tão logo relatos do ataque químico surgiram. “Muitos ligavam para saber notícias de amigos ou parentes. Eu liguei para meu irmão e fiquei aliviado ao saber que estava bem. Mas ele me contou que havia levado feridos para hospitais da área após um ataque”.

Haissam contou que seu irmão disse ter visto diversas pessoas com convulsões e problemas respiratórios, mas não pôde afirmar se as reações eram resultado dos foguetes disparados pelo governo. “Ele me contou que estava em uma praça tomando café quando ouviu estrondos em regiões com forte presença de rebeldes. Quando ambulâncias passaram levando feridos, meu irmão disse que tentou ir até uma das áreas atingidas, mas foi impedido por rebeldes armados. Ele também contou que moradores da área não podiam afirmar com certeza absoluta que foram as forças do regime as responsáveis pelo ataque”. Hassan ainda está no leste da capital e demorará alguns dias até que os dois irmãos possam se encontrar, já que os militares controlam o acesso aos bairros com presença de militantes do ESL.

Para o comerciante Mahmoud B., o cheiro forte que podia ser sentido em sua rua, no bairro de Zamalka, era o indício de que um ataque químico havia ocorrido. Sem pensar duas vezes, ele fugiu às pressas com sua mulher e os dois filhos para um bairro mais afastado.  “Simplesmente pegamos alguns pertences e saímos de casa. Não queria arriscar. Mas notei que havia um cheiro estranho no ar, do mesmo tipo que moradores em Douma já haviam notado antes”. Há relatos sobre a ocorrência de um ataque com arma química em Douma, no subúrbio de Damasco, no início deste mês.

Ele também disse não ter certeza se o ataque desta quarta partiu de tropas do governo ou se foi autoria de rebeldes. “Muitos moradores já não confiam em nenhum dos lados – rebeldes ou governo. Qualquer um seria capaz de cometer este crime”.

Linha vermelha – Fotos e vídeos apresentados pelos rebeldes mostravam crianças enroladas em lençóis brancos para um funeral e feridos em hospitais com sintomas relacionados a agentes químicos – espumando pela boca, com as pupilas dilatadas e tendo convulsões. Especialistas acreditam que o gás usado no ataque poderia ser o sarin, um agente que ataca o sistema nervoso. Mas há relatos de que grupos extremistas possuem um tipo de gás de fabricação caseira que poderia ser usado na guerra civil. 

Governos ocidentais exigiram que os investigadores de armas químicas da ONU tenham acesso imediato às áreas dos ataques, a testemunhas e vítimas, sem interferência do governo sírio. Trinta e sete países, incluindo os Estados Unidos, Reino Unido e França, exigiram que o chefe do grupo de inspetores da ONU, Ake Sellstrom, realizasse uma completa investigação. Rússia e China, aliadas do governo sírio, vetaram uma resolução do Conselho de Segurança condenando o ataque por divergências em relação ao texto. Mas a Rússia declarou que apoia uma investigação completa feita pela ONU.

O governo americano já havia dito que o uso de armas químicas significaria o cruzamento de uma “linha vermelha” e não seria tolerado. Nesta quinta, a França declarou que a comunidade internacional precisaria agir de forma firme se as alegações de que o governo sírio foi responsável por um ataque químico contra civis se provassem verdadeiras.

Dúvidas – Embora grande parte da mídia árabe, especialmente a alinhada com os governos contrários a Bashar Assad, especule que foi mesmo o regime sírio o autor do ataque, alguns analistas levantam questionamentos. “Um ataque usando armas químicas a poucos quilômetros do hotel onde está o time de investigadores da ONU, que recém chegou ao país, seria um suicídio político”, disse o libanês Karim Hashan, professor de geopolítica da Universidade Libanesa.

Ele lembrou que o ataque ocorreu no primeiro dia de trabalho dos inspetores das Nações Unidas, que chegaram ao país no domingo, e considerou que o governo sírio não cometeria o grave erro de lançar um ataque químico bem diante dos olhos dos investigadores. “Definitivamente, não era de interesse do regime de Assad realizar um ataque deste tipo. Somente um grupo teria o que ganhar com isso, e estes são os rebeldes. Há pouca informação sobre o que de fato aconteceu”.

O Ministério de Relações Exteriores da Síria afirmou ter informações de que um foguete de fabricação caseira contendo substâncias químicas não identificadas foi disparado de uma área controlada pela oposição. “Os russos tentam chamar a atenção para alguns fatos, como o de que os acusadores – a oposição – e não o acusado – o governo sírio – é que precisam provar suas alegações”, salientou Hashan.

Ele ressaltou ainda que é preciso levar em conta a forte presença na região de membros da Frente Al-Nusra, grupo que tem laços com a Al Qaeda. “Há, sim, um interesse da oposição em aproveitar a presença dos inspetores da ONU em Damasco. É claro que todas as opções estão na mesa. Os dois lados podem ter realizado o ataque, mas somente provas podem esclarecer o que houve, e não especulações”.

Os inspetores da ONU chegaram a Damasco domingo com a missão de investigar três locais que teriam sido alvos de ataques com armas químicas. Um desses locais é Khan al-Assal, no oeste de Aleppo. As outras duas localidades não foram divulgadas. Segundo a agência Associated Press, as Nações Unidas já receberam relatos sobre ataques com armas químicas em mais de dez localidades diferentes do país este ano.

A ONU declarou que já iniciou tratativas com o governo sírio sobre a possibilidade de incluir os incidentes desta semana na lista dos investigadores, que terão uma difícil tarefa a cumprir em uma guerra civil complexa e que já dura mais de dois anos, com um saldo de mais de 100 000 mortos e quase 2 milhões de refugiados.

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Fonte: VEJA

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