Fé, esperança e amor [Texto de Asaph Borba, de Amã – Jordânia]

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[Uziel Santana – Presidente da ANAJURE l Elizete LIma – Psicóloga do ANAJURE Refugees l Asaph Borba – Jornalista da ANAJURE]

 

IMG_3819Os degraus da escola nos fundo do monastério, nos arredores de Amã, Jordânia, pareceram longos e embaçados, enquanto eu os descia devagar. Lá na frente, eu tentava esconder de meus colegas as lágrimas que insistiam em rolar. A semana já tinha sido forte. Visita, ao campo de refugiados de Zátari, na fronteira com a Síria, hoje com mais de 84 mil pessoas, na maioria muçulmana, que esperam a sorte e a política mudarem. Vivem de forma provisória no meio do deserto, sem nenhuma perspectiva a curto ou longo prazo. Sobrevivem do que a ONU e o sobrecarregado governo Hashemita têm a oferecer. Visitamos ainda, famílias de refugiados urbanos que ocupam todo espaço disponível em Amã, que hoje, segundo dados oficiais, representam mais de 20% da população do pequeno reino. Estivemos também, nos bastidores do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados – ACNUR, aprendendo como é processado o cadastramento e sustento das mais de 900 mil pessoas que por ali passaram, nos últimos quatro anos. Mas, nada foi tão emocionante como esta tarde. Descendo a escadaria, deixava para trás cerca de 350 crianças e juvenis, filhos de refugiados cristãos, alguns deles desacompanhados e órfãos da guerra sangrenta, mas que encontraram refúgio no coração, alargado, do Padre Carlos, um homem singular e cheio de amor.

No refúgio, tudo é simples. Os professores, médicos, dentistas e psicólogos, são todos voluntários. Alguns estrangeiros, outros são locais. Existem ainda, aqueles que são também refugiados e estão ajudando a instituição como podem. Quando entramos em uma das salas, os cerca de 30 adolescentes presentes, ficaram de pé e sem hesitar cantaram o Pai Nosso em sua língua materna do norte do Iraque, o Aramaico. Seus olhinhos fechados e mãos estendidas a Deus, fizeram do momento um pedacinho do céu, junto das portas do inferno.

Todas estas crianças são de famílias cristãs. Muitas das que visitamos durante a semana são muçulmanas, porém todas de igual modo, têm traumas profundos. Em uma das casas, enquanto o pai narrava a saga de expulsão e fuga de Nínive no Iraque, sua menina de sete anos começa chorar compulsivamente dizendo: tudo ficou lá. Eu não tenho mais nada e não tenho mais nenhum amigo ou família, soluçava a pequenina. Assim como a viúva que teve o marido morto em sua frente e na presença de netos e nora, cuja a única opção foi fugir.

Sem dúvida, nesta semana minha vida mudou profundamente. Podemos ter miséria e privações em nossa terra, mas nada se compara às que vimos e ouvimos aqui. A ausência de perspectiva e de possibilidade vai exterminando os sonhos dos mais velhos e aniquilando o potencial dos pequenos. Em Zátari, por exemplo, de acordo com o coordenador da UNICEF, das 30 mil crianças, só a metade vai à escola, as outras, muitas delas no local já há quatro anos, não fazem nada, além de perambular pelas ruas empoeiradas do campo.

Mas, foi descendo a escada que compreendi em meu espírito o versículo de 1 Coríntios 13:13 – Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, destes três; porém o maior é o amor. Tem horas na vida que tudo aquilo que parecia ter valor e dar segurança acaba. Estive com pessoas que um dia eram ricas e bem de vida, e hoje não possuem mais nada. Os muçulmanos, apesar de conformados com o destino de Alá, me pareceram sem muita expectativa, porém os que são de Cristo, os olhos ainda brilham, expressando alegria e até mesmo gratidão a Deus, como o fez Assad: acima de tudo, louvo a Deus que salvou a minha vida e de minha família enquanto muitos morreram ao meu redor, concluiu.

A fé, em meio a privação, se torna a força que sustenta o espírito humano, a esperança é o que leva para frente, mesmo que seja um passo de cada vez, e o amor, é o perfume de Deus, que a gente sente em lugares como estes. Este amor quando verdadeiro, é tão forte e grande que faz com que muitos de nossos valores se apequenem.

Quando perguntei ao Padre Carlos como a Igreja brasileira poderia ajudar? Sem hesitar respondeu: Só amar. Eles precisam de amor! Saí dali naquele dia, redefinindo em meu coração o que é amor. Lembrei de 1 Coríntios 16:14 – Todos vossos atos sejam feitos com amor. Sim estes lugares carecem de atitudes urgentes: oferta financeira, saúde, vistos para refúgio e tudo mais que podemos fazer daqui para frente, mas tem que ser regado pelo verdadeiro amor.

Na saída em meio a algazarra da criançada, ainda tive olhos para ver em um canto, uma menina portadora de necessidades especiais. Me aproximei e toquei com carinho seu rosto, quando ela, então, estampou um sorriso de quem só espera por isso. (obviamente lembrei de casa e…)

No final, Padre Carlos declarou: aqui dentro, não temos imagens de santos, porque estes são os meu santos.

Nossa visita foi de caráter oficial representando a Frente Parlamentar para Refugiados e Ajuda Humanitária do Congresso Nacional, em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas Para Refugiados e com o respaldo da ANAJURE – Associação Nacional de Juristas Evangélicos.

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Asaph Borba l International Press Officer – ANAJURE Refugees

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