“Nós não temos voz”: dizem os cristãos na Jordânia que há 2 anos fugiram do Iraque

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Bahar (à esquerda), 81 anos, com suas filhas, Samira e Bahija

Bahija, 65 anos, uma dona de casa que chora todos os dias e sofre de dores de cabeça, mesmo dois anos após ter sua casa invadida por membros do Estado Islâmico em Tel Kayf (próximo de Mosul) na frente dela, enquanto seu pai idoso estava deitado na cama, no andar de cima. As forças de segurança curdas com base perto de sua casa, das quais a família esperava receber proteção, estavam ausentes quando os jihadistas chegaram.

Há exatamente dois anos (nos dias 6 e 7 de agosto), era invadida Qaraqosh, uma cidade nas planícies de Nínive, que, com Mosul, formava a maior comunidade de cristãos no norte do Iraque.

Quando eles (os jihadistas) assumiram o controle de vastas áreas do norte do Iraque, pintaram com spray as casas de não-sunitas com a letra árabe “N” para “Nasrani”, um termo depreciativo para “cristão”; “M” para os membros das forças armadas ou da polícia; e “R” para “rafithi”, um termo depreciativo para os muçulmanos xiitas, ameaçando-os de morte se eles não convertessem ou saíssem da área.

Os líderes da Igreja estimam que um número entre 100 mil e 160 mil cristãos tenham fugido de Mosul e de suas aldeias para o Curdistão no verão de 2014. Muitos permanecem em campos por lá, enquanto outros viajaram para a Jordânia ou o Líbano para se juntarem às comunidades cristãs pré-existentes.

Bahija, sua irmã e seus pais fugiram primeiro para o Curdistão, onde, um mês depois, seu pai morreu. As mulheres viveram durante sete meses no quarto de uma igreja, passaram 11 meses no acampamento Ashti em Erbil, e, quando os níveis de higiene no acampamento deterioraram-se, elas mudaram-se para Amã, na Jordânia, onde hoje compartilham uma casa de dois cômodos escassamente mobiliada, com mais três parentes.

Bahija disse que sua mãe, Bahar, de 80 anos de idade, grita de dores toda noite, pois tornou-se acometida por pressão alta desde que sofreu os ataques na sua casa, passando a ficar muito temerosa. A irmã de Bahija, Samira, perdeu a pensão de professora assim que deixaram o Iraque, porque ela trabalhou durante 23 anos, dos 35 anos necessários para ter o benefício. Bahija disse: “Eu não iria voltar para o Iraque, nem se eles me pagarem bilhões. Todos nos abandonaram, exceto Deus”

Os níveis de pobreza, fome e trauma são crescentes entre os milhares de refugiados iraquianos que buscaram refúgio em Amã; eles estão recebendo pouca ou nenhuma ajuda. Algumas mulheres se voltaram para a prostituição para sobreviver e muitas famílias não têm nem como fazer refeições.

O censo de 2015 registrou 130 mil iraquianos na Jordânia, dentre os quais os cristãos parecem estar desproporcionalmente representados. Em 2007, a estimativa era de que 12% dos migrantes iraquianos na Jordânia seriam cristãos, em comparação com uma estimativa de 1,6% de cristãos na população no Iraque em si (Operação Mundial, 2010).

Muitos iraquianos foram chegando à Jordânia, devido à sequência de invasões norte-americana de 2003. No entanto, a Jordânia também está abrigando 1,3 milhão de sírios, que fugiram dos horrores da guerra civil de quatro anos do seu país. As grandes instituições e ONGs, como a Save the Children, Oxfam e o Programa Alimentar Mundial, estão concentrando sua ajuda Síria. Programas educacionais da UNICEF têm focado nos sírios, embora um porta-voz tenha dito que algumas das suas instalações estão abertas a todas as crianças vulneráveis.

Há três anos, um porta-voz da ACNUR disse que os iraquianos registrados com o órgão estavam “extremamente pobres” porque todas as suas economias haviam acabado. Um porta-voz para a caridade (CARE), disse ao IRIN news: “Como a crise na Síria cresceu, o caso iraquiano tornou-se invisível”. Desde então, o número de refugiados iraquianos e a escala das suas necessidades se tornaram mais agudas.

Muitos estão vivendo em alojamentos privados básico, pagos por filantropos locais ou igrejas, cujos recursos estão sendo esticados ao limite. Alguns clérigos locais estão distribuindo pacotes de comida, móveis, ventiladores e outros subsídios para as famílias. Eles também ajudam com assistência médica e são sustentados por um pequeno número de instituições de caridade cristã, auxiliado por organizações e indivíduos muçulmanos locais.

Alguns refugiados têm lesões físicas graves, ocasionadas por ataques de milícias e precisam de tratamento médico. Safwan Hikmat, dono de uma loja em Mosul, antes de fugir, teve oito operações na perna dele desde que milícias o atacaram com as suas armas e passaram por cima dele em 2011. Ele ficou sem poder andar por dois anos. Disse que foi alvejado em um atentado que buscava não-sunitas.

Há necessidade de saúde mental considerável entre os refugiados. Justin Hett, um psicoterapeuta formado no Centro para as Vítimas de Tortura em Amã, tem visto um grande aumento na necessidade de seus serviços nos últimos dez anos, ele afirma ocorrem casos de estresse pós-traumático, pensamentos suicidas, ansiedade e tensões de relacionamento.

Fr. Emmanuel al-Bana, um sacerdote sírio ortodoxo em Amã que supervisiona uma rede de ajuda informal para centenas das 3 mil famílias de refugiados iraquianos que, segundo ele, fugiram para a Jordânia, disse que as apelações de cristãos iraquianos para asilo no Ocidente eram muitas vezes rejeitada. Isto pode adicionar aumentar a sua ansiedade, se eles estão dispostos a fazer isso. “Eles estão cuidando de sírios e muçulmanos, mas não de cristãos iraquianos”, disse ele, acrescentando: “Nós não temos voz”. Ele também disse que teme o êxodo para outras áreas pois a presença cristã pode diminuir ainda mais, chegando a zero no Oriente Médio.

Outro refugiado de uma vila fora de Mosul perguntou: “Por que eles estão [o mundo ocidental] deixando muçulmano entrar e não nós? A Europa parece não querer nos receber viajando legalmente.” Ele disse que seu sobrinho estava na Turquia, tentando alcançar um parente na Alemanha. “Ele está tentado ir ilegalmente, mas pode ser perdido no mar ou morto por guardas de fronteira no caminho”, acrescentou.

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, disse que o tamanho do fluxo de refugiados em grande parte muçulmana tem ameaçado à identidade da Europa e agora se prepara para realizar um referendo sobre a questão das quotas obrigatórias para imigrantes, esperando que os eleitores rejeitem o reassentamento forçado dos requerentes de asilo.

Em 04 de agosto, o Vice-Primeiro-Ministro Checo, Andrej Babis, disse que seu país não vai aceitar os refugiados, após a recente onda de ataques na Alemanha e França. “Eu digo claramente que eu não quero mesmo um único refugiado na República Checa, nem mesmo temporariamente”, disse ele.

No verão passado, esses mesmos governos do Leste Europeu enfrentaram críticas por terem dito que queriam priorizar o recebimento de refugiados cristãos.

Lord Alton, o respeitado ativista britânico que pressionou o governo britânico para descrever as ações contra cristãos e yazidis como “genocídio”, lembra: “Todo mundo está sofrendo nesta situação [no Iraque], mas nem todo mundo é vítima de genocídio. Ao invés de entrar em um debate sensível sobre um grupo por causa de sua fé ou denominação, devemos simplesmente dar prioridade àqueles que estão sujeitos ao genocídio”.

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Fonte: World Watch Monitor
Tradução: Rafael Durand l ANAJURE

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