Recente violência no Níger mostra que está crescendo a intolerância entre grupos religiosos

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Uma das muitas igrejas no Níger que foram recentemente atacadas por muçulmanos.

 

Um misto de emoções era evidente no meio dos membros da comunidade cristã no Níger reunidos para seus serviços no domingo, dia 25 de janeiro de 2015. Alguns estavam cheios de alegria por votarem à igreja, outros mal podiam esconder sua tristeza.

Uma semana atrás, os sinos da igreja permaneceram em silêncio. Dez pessoas morreram durante esse fim de semana; mais de 70 igrejas foram destruídas, juntamente com numerosas escolas e organizações cristãs, incluindo um orfanato. Mais de 30 casas de cristãos foram escolhidas para serem saqueadas e incendiadas. Os afetados dizem que a violência deixou-os  com "apenas as roupas do corpo".

Foi significativo para as igrejas poder retomar seus serviços de louvor e adoração, disse o presidente da Aliança Evangélica no Níger (AMEEN) Rev. Kimso Boureima, ao Correspondente da World Watch. "Foi importante porque um cristão que vive por si só não é fortalecido em sua fé. Como ensina a Bíblia, somos encorajados quando estamos juntos… É também uma ocasião para mostrar a capacidade da Igreja para enfrentar as provações, porque depois do que aconteceu, os cristãos estão em grande necessidade de apoio espiritual."

Fontes locais relataram que muitas igrejas em toda a capital montaram tendas e cadeiras para manter seus serviços. Os adoradores cantaram, rezaram e encorajavam uns aos outros, alguns ficaram o tempo todo.

Na cidade extremo sul-oriental de Zinder, onde o violênncia começou, na sexta-feira dia 16, houve também um forte desejo de superar o medo e seguir em frente – apesar da incerteza sobre o futuro, particularmente de alguns que perderam suas propriedades.

"As mensagens de exortação têm incentivado os cristãos na sua fé a fim de seguir em frente. Porque, como diz a Bíblia, nós não temos um espírito de medo e timidez, mas um espírito de poder e da sabedoria", disse Rev. Boureima.

"Certamente, essa é uma grande prova, mas Jesus prometeu que estará conosco até o fim dos tempos. É por isso que foi necessário trazer o nosso povo de volta às Escrituras, e deixá-los aplicar essas Escrituras em suas vidas, apesar das dificuldades do momento."

Os serviços de domingo estavam cheios de emoção e tristeza. Alguns fiéis caíram em prantos. Houve também medo, mas um pouco desse medo foi dissipado pela presença da polícia perto de vários locais de culto, o que ajudou a tranquilizar as congregações.

A violência anticristã, condenada pelas autoridades do Conselho Islâmico de Niger dentre outros, tinha vindo como uma surpresa neste país, que é conhecido até agora pela sua tolerância religiosa relativamente pacífica, apesar de mais de 98% dos 17 milhões de habitantes do Níger serem muçulmanos.

O motivo para os manifestantes contra os cristãos se deu por revolta devido à presença do Presidente do Níger, Mahamadou Issoufou, em Paris, junto com outros cinco chefes de Estado africanos, em 11 de janeiro de 2015. A edição da revista "Charlie Hebdo", mostrando o Profeta Mohamed chorando, reforçou essa raiva e agitou o protesto, que rapidamente se transformou em violência anticristã. Ainda assim, os cristãos no Níger não tinham relação alguma com Charlie Hebdo.

Crescimento do Islã radical

A violência anticristã é a expressão de uma crescente intolerância na sociedade do Níger, agravada pelo crescimento do islamismo.

Desde a década de 1990 o cenário sócio-cultural do Níger mudou drasticamente, com alguns grupos radicais islâmicos que defendem uma interpretação rigorosa do Islã, em oposição à forma tolerante do Islã amplamente conhecido no Níger. Izala, o grupo salafista mais ativos no Niger, veio da vizinha Nigéria.

As ações dos manifestantes em Zinder (cerca de 100km da fronteira com a  Nigéria) lembrou moradores de contínua violência Boko Haram lá. Os manifestantes atacaram os símbolos do Ocidente, incluindo o Centro Cultural Francês, e queimaram a bandeira francesa. A bandeira jihadista preto e branco foi vista voando em Zinder, algo nunca visto no Níger antes. A minoria cristã, muitas vezes associada com os ocidentais, tornou-se um alvo principal.

A violência anticristã aumentou acentuadamente no Níger nos últimos anos, a partir de um incidente em 1998 e dois em 2000 –  em Maradi, também perto da fronteira com a Nigéria. A última onda de violência é vista como a história se repetindo: em setembro de 2012, um protesto contra o filme americano "A Inocência dos Muçulmanos" serviu de pretexto para ataques a três igrejas em Zinder.

Pobreza disseminada

Para muitos, os ataques de 16 e 17 de janeiro são o resultado direto de mal-estar social e econômico alimentado pela pobreza generalizada. Apesar de seus recursos minerais – urânio e, mais recentemente, o petróleo – o Níger é um dos países mais pobres do mundo. Os partidos da oposição, em denúncia um dia após a violência anticristã, acusaram o presidente Issoufou de não fazer o suficiente para lidar com o desemprego dos jovens, a corrupção e assim por diante.

A fragilidade do Estado

A violência também revelou a incapacidade das forças de segurança de garantirem a proteção aos cristãos e suas propriedades. Em Niamey, 'manifestante-saqueadores', dirigindo em toda a cidade com motocicletas, carros, e muitas vezes de táxi, não enfrentam qualquer resistência por parte das forças de segurança.

Várias fontes disseram ao WWM que não havia proteção em torno das principais igrejas da capital – exceto a catedral católica, onde uma forte presença policial significava que era um dos poucos locais a escapar do ataque.

Em Zinder, alguns apontam para a falta de ação por parte das forças de segurança locais, depois de mensagens pedindo uma manifestação após as orações da sexta, mensagens essas que circuluram amplamente – principalmente via mensagens de textos – na quinta-feira, 15 janeiro. Em ambos, Niamey e Zinder, a violência parece ter sido bem planejada e executada.

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FONTE: World Watch Monitor
TRADUÇÃO: Fernando Souza l ANAJURE

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