Um cartão postal da “Pequena Bagdá”

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Por Nuri Kino

Marenfiskarna

Maren bay, Södertälje.
Nuri Kino


Está silencioso. A única coisa que você pode ouvir são os pássaros cantando. Sete ou oito pescadores, imigrantes Iraquianos e Sírios, estão apertando os olhos sob o sol. A julgar pelas suas roupas, devem ter chegado recentemente. São10h30min em um domingo. Minhas sobrinhas e eu fomos para Maren, a baía no coração da cidade, para alimentar os pássaros. Nós nem sequer temos tempo para esmigalhar o pão antes de pombas, patos e gaivotas se reunirem a nossa volta. Cerca de 20 patos decidem subir as escadas quando percebem que as meninas não podem jogar longe. Os pescadores olham para nós um pouco irritados, pois pensam que estamos afugentando os peixes que normalmente pegam. Cerca de 20 outros homens não Suecos aparecem, três deles tiram fotografias das aves e de nós. Eles trabalham para a Scania, a fabricante de caminhões Sueca na Argentina, e estão aqui para uma visita à sede. "Vocês tem uma bela cidade", um deles me diz, enquanto dá um zoom em nós e nos pássaros.

Quando estamos sem pão e os Argentinos saíram de cena para a próxima atração turística, tudo se transforma em silêncio novamente. Minhas sobrinhas, de quatro e dois anos de idade, sentam-se próximas dos pescadores.

Alguém está chorando. Atrás de nós, um jovem em seus vinte anos pega seu celular, olha, chora, e em seguida, coloca-o de volta no bolso. Ele tenta sufocar as lágrimas, pega o celular de novo, olha para ele e chora. E repete este movimento várias vezes.

Fujo das meninas e dos pescadores, e pergunto, em Sueco, se ele precisa de qualquer ajuda. Ele não entende o que estou dizendo. Ele fala árabe (obrigado Södertälje, por nos fazer multilíngue!). Repito a minha pergunta em sua língua. Ele nem sequer olha para mim no começo, mas então lentamente levanta os olhos.

 "Você sabe alguma coisa sobre a reunião na St. Jacob hoje?", ele me pergunta.

A igreja pediu aos refugiados da Síria para participarem de um encontro, visando discutir o seu futuro na pequena cidade Sueca. A igreja também quer saber se eles estão precisando de moradia, comida, roupas ou outras coisas.

O jovem, chamado Gabi, um Cristão, desertou do exército de Bashar al-Assad, no sudoeste da Síria. Ele levou cinco meses para chegar à Suécia. Outra história de refugiados de partir o coração, muito longa para escrever aqui. Durante três meses, ele ficou hospedado em um flat alugado, com dois quartos, junto com três outros jovens refugiados da Síria. Mas agora parentes do proprietário do flat chegaram – também da Síria – e estão forçando os homens a sair do apartamento.

Hoje, Gabi também soube que seu melhor amigo foi encontrado morto do lado de fora de sua casa na capital da Síria. É a imagem do amigo que ele continua olhando em seu celular. E agora, aqui ele se senta, o resgatado da guerra, o que conseguiu dirigir-se a Suécia, sem lugar para ficar, sem trabalho e sem o dinheiro que trouxe da Síria. A maior parte foi para pagar os contrabandistas. Ele teve que pagar U$ 18.000, cerca de 118.000 Coroas Suecas, para chegar ao Södertälje. Todo mundo que vem aqui tem que pagar esses montantes. Todos. Dou-lhe um número de telefone; a pessoa que vai responder pode ser capaz de encontrá-lo um novo telhado para colocar sobre sua cabeça.

Nós nos levantamos de Maren. A cidade está em movimento, as lojas estão abertas agora e muitas famílias estão indo às compras; famílias brancas, famílias étnicas Suecas, do tipo que não se vê nos dias de semana. A essa hora, a maioria dos Assírios e outros imigrantes está na igreja.

"Tio, tio, olhe, eles estão brigando." Minha sobrinha de quatro anos traz a minha atenção a uma luta. Dois homens em seus trinta anos estão lutando no meio de um cruzamento da estrada, chutando um ao outro. Um deles começa a sangrar no nariz. A luta termina quando os carros quase passam por cima deles. Uma mulher puxa a jaqueta de um dos homens. As coisas se acalmam e seguimos em frente.

Sentamo-nos em Tidermans, minha cafeteria favorita. As meninas estão muito felizes com seus doces e refrigerantes. Eu olho para elas e sinto-me feliz. Elas não vivem em Södertälje. Elas não têm que ser uma parte da guerra na Síria. Quase todo mundo que conheço aqui tem parentes que ainda estão no país ou fugiram para um país vizinho ou que estão no caminho para a Suécia através de outro país, que é a rota mais fácil de contrabando. Todo mundo conhece alguém que foi ameaçado, sequestrado, estuprado ou morto. Nós somos uma parte da guerra, quer gostemos ou não.

Outra razão pela qual eu estou feliz pelas meninas é que elas não têm que ouvir os adultos falarem sobre guerras de gângster e corrupção envolvendo o nosso povo. E mais do que qualquer coisa, que elas começam a conhecer os Suecos étnicos. Começam a integrar, como é tão duramente chamado. Mas, então, a minha alegria se transforma em outra coisa, uma sensação de derrota, de desistência, de traição.

Södertälje tem seu charme, e é fácil de romantizar sobre multiculturalismo, mas às vezes isso pode ser tolo. Dizer que não temos problemas em nossa cidade é mentir. Tentar descrever a cidade a partir de um ponto de vista Sueco é errado. Claro que ela é Suécia, mas não é Sueca. É outra cultura, uma mistura de culturas completamente diferentes. E a coisa mais importante foi conseguida: educar os refugiados recém-chegados sobre como trabalham a burocracia, leis e regulamentos Suecos. Ou, pelo menos os mais essenciais. Eles andam sem saber o que é certo ou errado. E eles olham para algumas etnias Suecas como senhores, como um estado e um poder, algo que no Iraque e na Síria era visto como o inimigo.

Eu estou generalizando, mas eu estou autorizado: Eu fui criado aqui. Deixei Södertälje há 23 anos, mas estou de volta, para uma cidade totalmente nova eemocionante. Emocionante, interessante, louca, com abuso e desespero, crime e assassinato. Mas também amor. Lutamos com os dentes cerrados, lutamos pela sobrevivência de nossos parentes em outros países muito longe, e lutamos por um ambiente saudável em nossa cidade natal Sueca.

Quando as meninas e eu deixamos o Tidermans, um dos pescadores me para. Ele pegou um peixe e quer me contar sobre isso. Ele está na Suécia há dois anos. Pergunto-lhe se ele sabe quem é Sueco;e faço uma piada sobre as etnias Suecas com as melhores receitas de peixe.

"Sim, a dama da assistência social, ela me paga meus benefícios todos os meses. Você acha que ela vai me dar uma receita?". Ele ri.

Dizemos "Hejda", adeus em Sueco, e ele nos deixa. De repente, ele se vira. Desta vez, sério. "Se eles não nos deixam usar o banheiro, você acha que eles vão querer passar mais tempo com a gente ou nas dar receitas?"

Ele está certo, eu tinha esquecido. Um amigo me disse a mesma coisa uma semana atrás. Os banheiros no escritório de assistência social em Södertälje, em Nygatan, foram fechados por quase seis meses.

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FONTE: WORLD WATCH MONITOR
TRADUÇÃO: FELIPE AUGUSTO

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